quarta-feira, 28 de julho de 2010

Manuel Alegre. Passado militar persegue candidato

Ao contrário de centenas e centenas de anónimos na blogosfera e nos programas de opinião pública, o almirante Vieira Matias não diz que Manuel Alegre é desertor. O ex-chefe do Estado-Maior da Armada sabe que o candidato à Presidência da República foi mobilizado para Angola e ali se manteve até ter passado à disponibilidade. Mas o facto de não ter sido desertor não diminui, aos olhos do almirante, a mancha no passado militar de Alegre. "Tecnicamente pode não ter sido desertor, mas isso é o que menos importa. Estar ao lado do inimigo é uma atitude que tem um nome. Para mim foi bastante pior que a deserção", afirma Vieira Matias ao i.


É o Manuel Alegre locutor na Rádio Voz da Liberdade que o almirante Vieira Matias ataca. "A deserção em si é um acto isolado, sem consequências de maior. A rádio de Argel criava danos psicológicos nas nossas tropas e incentivava o inimigo a combater mais violentamente." O facto de, para Alegre, a guerra ser injusta não demove as acusações do almirante. "Poderia ser a opinião dele, mas não lhe dava o direito de criar condições para causar mais baixas nos seus compatriotas".

A sua biografia oficial refere que "em 1962 é mobilizado para Angola, onde dirige uma tentativa pioneira de revolta militar" e "é preso pela PIDE em Luanda, em 1963, durante seis meses": "Passa dez anos exilado em Argel, onde é dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Aos microfones da emissora A Voz da Liberdade, a sua voz converte-se num símbolo de resistência e liberdade." A sua biografia militar, publicada antes do anúncio oficial da candidatura, já não refere a "tentativa pioneira de revolta militar", mas tem uma extensa explicação do percurso militar de Manuel Alegre, desde "a incorporação, como cadete, no curso de oficiais milicianos, na Escola Prática de Infantaria, em Mafra" em Agosto de 1961 até ao dia de Dezembro de 1963 em que a Região Militar de Angola "ordena o seu regresso a Lisboa na situação de disponibilidade", depois de ter sido preso pela PIDE, que depois lhe fixa residência em Coimbra.

Às primeiras dúvidas sobre o passado militar - lançadas publicamente pelo almirante Vieira Matias e pelo tenente-coronel Brandão Ferreira num colóquio do Instituto de Defesa Nacional em Abril passado onde Alegre participou - a direcção de campanha do candidato decidiu de imediato divulgar uma pormenorizada ficha militar. Mas não foi por isso que diminuíram as acusações de "traição" nos fóruns públicos.

A ficha militar recorda que Alegre, alferes miliciano de infantaria, foi colocado numa companhia de guarnição normal e que "o seu pelotão recebe como missão a realização de escoltas para o Norte, nomeadamente o Quicabo, Beira Baixa, Nambuangongo e Quipedro". O pelotão de Alegre esteve "várias vezes debaixo de fogo, a primeira das quais entre Nambuangongo e Quipedro". É por essa altura que Alegre vê morrer o amigo Manuel Ramalho Ortigão, para quem depois escreve a "Canção com Lágrimas", cantada por Adriano Correia de Oliveira que, juntamente com "Nambuangongo" e "Pedro Soldado" faz parte dos seus poemas mais conhecidos contra a guerra colonial.

João Tocha, consultor político, que já trabalhou em várias campanhas eleitorais, não está convencido de que o boato sobre a deserção de Manuel Alegre possa prejudicar o candidato. "Os rumores e os boatos podem destruir ou fortalecer a reputação de um candidato. Nestes casos, o que importa é saber o que nos dizem os estudos de opinião sobre a relevância ou não deste rumor para os eleitores e, em especial, para a base de apoio do candidato", afirma ao i. Tocha admite que não tenha influência se "a maioria das pessoas não considerar importante o tema da deserção". "Se, o que duvido, esse tema for relevante para a base de apoio e de potenciais eleitores do candidato, então cabe-lhe desmentir, com factos, e contar a sua história". Mas o facto de Alegre ter optado por desmentir - correndo o risco de irritar aqueles para quem o facto de se ter sido desertor não constitui mancha no currículo e não desejarem ver um candidato de esquerda distanciar-se desse percurso - não diminuiu a força do boato. Para o consultor, "não há guias perfeitos na gestão de crise. Gerimos emoções e informação não comprovada, mas muito comestível e valiosa. A única arma perfeita é o candidato, por antecipação, ter os cenários de todos os ataques previsíveis, e, para cada cenário, ter, a frio, um plano de acção. O que para a cultura portuguesa é um bocado complicado".
ionline
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