domingo, 10 de janeiro de 2010

O que fazer com a água que quase enche a albufeira de Alqueva?


Às oito horas de ontem, o boletim diário do Sistema Nacional de Informações de Recursos Hídricos registava para Alqueva a cota 151,80 metros. Faltavam uns escassos 20 centímetros para o maior lago artificial da Europa, com capacidade para armazenar 4150 hectómetros cúbicos, estar completamente cheio.




As expectativas que a evolução da cota em Alqueva têm gerado na opinião pública desde o passado dia 1 de Janeiro não são extensivas aos agricultores alentejanos. No lugar do entusiasmo, é patente o cepticismo e a desconfiança em relação ao maior projecto de investimento público em curso no país.



Para se ter uma ideia do alheamento dos agricultores em relação ao projecto Alqueva, retenha-se uma das conclusões das jornadas técnicas Gestão do Regadio realizadas em Portel nos dias 18 e 19 de Novembro, promovidas pela Federação de Regantes de Portugal (Fenareg): "De facto, muito pouco está definido sobre a forma como vão ser geridas as novas áreas regadas do Emprendimento de Fins Múltiplos de Alqueva", escreveu Ilídio Martins, director da Associação de Regantes e Beneficiários de Campilhas e Alto Sado e vice-presidente da Fenareg. Numa altura em que estão em funcionamento alguns blocos de rega, seria expectável que "estivesse delineada uma estratégia de gestão das futuras áreas a regar", acentua Ilídio Martins, lembrando que o Governo se comprometeu a instalar, até 2013, mais 110 mil hectares de novos regadios na área sob influência de Alqueva.

Porém, as associações e organizações de agricultores locais "vão observando e constatando que as obras estão a avançar no terreno" sem que estejam a ser envolvidos no processo de passagem do sequeiro para regadio. O estado de espírito dos agricultores sobre o Alqueva está generalizado.
Produtores: água não
O PÚBLICO falou com António Rosado, dirigente da Associação de Jovens Agricultores de Moura, que confirma a "inexistência de uma estratégia" para o regadio. Quando se pergunta a qualquer agricultor o que vai fazer com o novo regadio "ele não sabe". Mais grave, acrescenta, é constatar que "há agricultores que não querem a água", alegando não ter capacidade financeira e, além disso, falta-lhes capacidade técnica, observa aquele dirigente associativo.
O facto de a barragem estar cheia tem apenas um significado simbólico. "Mas para quê", pergunta António Rosado, criticando o comportamento da tutela, sobretudo do anterior ministro da Agricultura, por ter mantido os agricultores e as suas associações "à margem do projecto" e por ter afastado os técnicos ministeriais do contacto com os agricultores, quer pelo encerramento de serviço quer pela colocação na mobilidade de um razoável número de funcionários que agora fazem falta.
O resultado está à vista. Nos 7800 hectares de novos regadios instalados, entre 2006 e 2008, em Monte Novo, próximo de Évora, "são raros os agricultores que usam a água de Alqueva", confirma João Rodrigues, que é presidente da Junta de Freguesia de Torre de Coelheiros, beneficiada com cerca de mil hectares de regadio.
"As pessoas queixam-se que não têm apoio técnico e não sabem quanto vão pagar pela água que consomem", explicou o autarca. Os recursos hídricos que utilizam nas suas explorações obtêm-nos de pequenas barragens ou captam-nos através de furos. A EDIA adiantou ao PÚBLICO que o preço da água "ainda não está estabelecido". Percebe-se, então, porque é que nas novas áreas servidas por Alqueva, em 2009, apenas "140 agricultores utilizaram as infraestruturas" de rega, numa área que abrange, neste momento, perto de 15.000 hectares.



Gestão da barragem vai ser reequacionada
Confrontado com as críticas das associações de agricultores, uma fonte do Ministério da Agricultura garante que o Alqueva "é o projecto mais estratégico da agricultura nacional", que se destaca por ser " inovador, competitivo e gerador de novas oportunidades".
Porém, vai ser sujeito a uma "reponderação" que passa pela elaboração de um novo estudo que será "oportunamente divulgado".

A posição do Governo surge numa altura em que a EDIA anuncia que "todas as obras da rede secundária em curso durante o ano de 2009 estarão concluídas ou em fase de conclusão, para que, na próxima campanha, haja cerca de 52 mil hectares" equipados para rega.
"Chega mais depressa a água que as ideias" para a sua utilização, reage António Rosado, assumindo a sua descrença em relação a um projecto de regadio que tem conclusão anunciada para 2013.

Apenas a valência energética está a produzir resultados. Em Outubro de 2007, foi assinado o contrato de exploração das centrais hidroeléctricas de Alqueva e Pedrógão e da subconcessão do domínio público hídrico entre a EDIA, SA e a EDP, SA. A primeira entidade ficou com um encaixe de 195 milhões de euros e vai receber da EDP uma renda anual de 12,6 milhões durante os próximos 35 anos.

Entretanto, a EDP está a construir uma segunda central hidroeléctrica em Alqueva para duplicar a capacidade instalada (de 260 para 520 megawatts) em Dezembro de 2011. O suficiente para abastecer 300 mil pessoas.
publico
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